
Recebi algumas propostas para ser crítica musical, mas ainda não aceitei. Não fico confortável na postura de escrever profissionalmente sobre determinado trabalho ou artista. Sou dessas que gostam de realizar e confesso que sempre achei que os críticos eram artistas frustrados. Ok, muita ignorancia da minha parte, afinal eles são essenciais na construção de...na construção de que mesmo? Mas enfim, a crítica é importante porque ela nos ajuda a refletir a arte.
De qualquer forma sempre achei mais interessante botar a mão na massa e deixar pra vida e pras pessoas julgarem se aquilo é bom ou não pra elas. Gosto de me concentrar no que é bom, exaltar os bons músicos que conheço. E não faço isso profissionalmente, mas por gosto pessoal.
No entanto, agora que virei empresária músical, tenho sido muito observadora. E esses dias fui garimpar novos talentos. Aproveitei algumas viagens e fui conhecer os cantores de barzinhos, e gente que faz faculdade de música.
Encontrei aquilo tudo que esperava: muita gente talentosa naturalmente e muita gente que tá na ladeira da preguiça.
É impressionante como tem cantoras (es) que vivem numa postura blasé, com uma falsa humildade e uma embalagem cool. Elas geralmente cantam "Ladeira da Preguiça" e algumas outras músicas que bebem na fonte da mpb com jazz. Alguns dizem que são otimas, encantadoras. Mas a minha opinião é que poucas contribuem para a criatividade musical, poucas ousam na busca de novos sons. Caem no mais do mesmo.
Em contraponto, vi algumas cantoras (es) cantando um repertorio simples, emotivo. Pessoas que carregam na alma a importancia de se expressar para nao enlouquecer.
E aí é que o menos é mais.
Assisti um show da Fernanda Takai esses dias e me surpreendi. Não gostava dela e no entando ela me provou que cantoras de voz pequena não precisa se esgoelar para tirar o melhor da música.
Escutar a interpretação delicada de Fernanda para músicas como Ben, do repertório de Michael Jackson, pode ser uma experiência renovadora: descobre-se que não é preciso se esgoe-lar como um calouro do American Idol para transmitir emoção.
Mas voltando a falar de experiencias inovadoras na música, vi alguns casos mais caseiros e que dão conta do recado. Destaco a ótima banda "Maloca Fina" de Rio Claro, que passeia por um repertorio desde "Eu bebo sim" até coisas mais atuais e numa energia impressionante. Eles não saem do tom e o show deles é inquietante. Buscam uma sonoridade inovadora para canções tão conhecidas.
Destaque para Maria Rita, que a cada música que grava tem a delicadeza de torna-la maior. Ela nao é uma cantora incrivel na sua extensão vocal, mas sabe usar e abusar das letras e melodias. Podem dizer o que for, mas analisando o crescente trabalho, percebe sua capacidade de criar.
Outra que me emociona e tá apenas começando a carreira, mas merece minha atenção é Bruna Morais, tão intensa e segura que quando você ouve ela cantando, nem parece que tá ouvindo uma cantora, mas temos a sensação de estar pensando. Ela entra dentro de você suavemente. E suas composições com o mestre Italo Lencker nasceram classicas. É pra quem pode e não faz cara de "eu sou cool".
Do rock atual, a única banda que merece meu comentário é Archanjjos, uma banda de Rio Claro, quase amadores e tão geniais. Ainda não sabem de sua importancia na contribuição de um rock com boas melodias bem construídas e letras inteligentes. Eles dizem brincar de fazer música e no entanto criam mais que os profissionais.
Sobre as Universidades de Música, deixarei para falar num outro post, esse tá ficando grande demais. Mas me espantei com o circo de horrores e de mau gosto que tenho visto. Tirando o pessoal da música instrumental que vem se renovando sempre, pesquisando, estudando e lutando para ter seu espaço numa carreira cheia de pedras, o pessoal da música popular tem caído no que é seguro:
cantem "Ladeira da Preguiça"...é a cara de vocês.

